Capa,

O deboche de Hilda

Diretora de arte da editora Ubu, Elaine Ramos fala sobre a capa de julho, dedicada a Hilda Hilst

12nov2018

Superando com destreza os desafios de se gerenciar uma editora independente no Brasil – a Ubu, que abriu em 2016 junto a um time exclusivamente feminino –, a diretora de arte Elaine Ramos (@elainerc) assina a capa da revista #13, de julho de 2018 (feita a partir de uma foto de Hilda Hilst clicada por Renata Falzoni, uma das pioneiras da videorreportagem e também da cobertura jornalística em bicicleta no Brasil). Formada pela FAU-USP, Elaine foi diretora de arte da editora Cosac Naify por mais de uma década, onde desenhou centenas de livros – alguns dos quais reconhecidos com importantes prêmios literários, como o Jabuti, o Aloisio Magalhães, o American Institute of Graphic Arts Awards e o Art Directors Club Annual Awards. Ao lado de Chico Homem de Melo, dedicou-se à pesquisa para a publicação de Linha do tempo do design gráfico no Brasil, que recebeu o Prêmio do Museu da Casa Brasileira e o Jabuti de melhor projeto gráfico. Foi também co-curadora da exposição Cidade Gráfica, no Itaú Cultural, em São Paulo.

Como foi o processo de criação desta capa? Foi uma grande sorte: logo depois que me convidaram pra desenhar a capa daquela edição, o Paulo Werneck (editor da Quatro Cinco Um) localizou um ensaio inédito de retratos da Hilda Hilst feito pela Renata Falzoni. Entre os negativos, aquela pose irreverente da autora nos pareceu uma ótima foto para a capa. O trabalho ficou então muito simples: dar o máximo de força à imagem, decidindo, junto ao editor, retirar a chamada que normalmente se sobreporia a ela. O resultado foi a Hilda mostrando a língua nas bancas de jornal, debochando de todos os passantes.

Você é leitora de Hilda Hilst? Qual a sua opinião sobre a escritora? Não sou uma grande conhecedora da Hilda. Li a coletânea de texto da editora Biblioteca Azul, chamada Pornô Chic, que reúne os livros O caderno rosa de Lori Lamby, Contos d’escárnio, Cartas de um sedutor e os poemas de Bufólicas, e gostei muito. São textos estranhos e engraçados, uma literatura muito autêntica.

Um dos fortes da Ubu – como era na Cosac – é o cuidado estético com as obras. Qual a importância do projeto gráfico de um livro? O projeto gráfico é a interface entre o texto e o leitor. Ele determina não apenas a capa, o tipo, tamanho e posição das letras etc., mas também o formato, o peso, a textura e a maleabilidade de um livro. Um bom projeto faz do livro um objeto agradável de ser manuseado, que se comunica, chamando a atenção do público, despertando a curiosidade, mostrando com clareza a estrutura do conteúdo e convidando à leitura – momento em que ele idealmente sai de cena, tornando-se silencioso.

Como a literatura contribuiu para a sua formação pessoal e profissional? A boa literatura pode ser uma experiência muito marcante, e transformadora. Talvez essa consciência me desperte um sentimento de respeito, de reverência, que determina a minha abordagem na hora de projetar um livro.

Pode nos contar sobre um trabalho seu do qual se orgulha mais? O trabalho de que eu mais me orgulho é provavelmente o Linha do tempo do design gráfico no Brasil, por ser uma contribuição importante à minha área. Este livro reúne mais de 1600 imagens da produção gráfica nacional, e me dediquei a ele por três anos, participando da pesquisa e da organização, além do design. Em termos literários, acho que os melhores textos que já projetei na vida foram os livros do William Faulkner, de quem sou muito fã, e o Guerra e Paz, do Tolstói.

Na sua opinião, quais são as maiores vantagens e desvantagens de se trabalhar no mercado de livros? Gosto muito de me dedicar a conteúdos relevantes, produzindo objetos que ficam, que não são feitos para serem descartados. E acho absolutamente fascinante a capacidade inesgotável do livro de abrigar novos universos. Mas eles dão muito trabalho, e a remuneração muitas vezes fica desproporcional.