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Na medida

Ser crítico sem ser panfletário: para Veridiana Scarpelli, que ilustra a capa de agosto, eis o desafio do ilustrador

14nov2018 - 16h35 | Edição #4 ago.2017

O aumento da desigualdade como consequência do desenvolvimento econômico é o delicado tema ilustrado por Veridiana Scarpelli (@veriscarpelli) na capa da edição #4, de agosto de 2017. Formada em arquitetura e urbanismo pela USP, ela deixou o desenho industrial de móveis para trabalhar exclusivamente com ilustração em 2007. Entre seus clientes regulares estão o Instituto Moreira Salles, a Folha de S.Paulo, a Trip Editora e o Sesc. Em 2012, lançou seu primeiro livro como autora e ilustradora, O sonho de Vitório (Cosac Naify).

Quais são os desafios do ilustrador ao tratar de temas sensíveis à população e que dividem opiniões, como política, religião e economia? Acho que o maior desafio é ser crítico sem ser meramente panfletário. 

Em relação à estética, há uma diferença entre fazer ilustrações para crianças e fazê-las para adultos? Depende. Pode ser muito diferente, sim, se considerarmos que as ilustrações podem algumas vezes ser bastante cruas ou violentas, ou mesmo trazer referências que apenas adultos podem entender ou com as quais apenas eles podem se relacionar. Mas, por outro lado, acho que as crianças têm muito mais compreensão e capacidade do que os adultos parecem acreditar. Essa ideia de que desenho para criança tem que ser fofinho, colorido e todo cheio de ruído está, ainda bem, ficando obsoleta

Como o desenho industrial de móveis a ajudou na sua profissão atual de ilustradora? Mais do que o desenho de móveis, ou minha formação em arquitetura, acredito que a faculdade em que me formei [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP] foi um fator de extrema importância para eu me tornar ilustradora. Foi na FAU, com seu currículo tão amplo, que eu comecei a entender a ilustração como profissão e tive contato com diversos colegas e amigos que seguiram por este caminho. Além, é claro, de todas as disciplinas e atividades relacionadas à arte, desenho e ilustração que enriqueceram meu repertório. 

Pode descrever seu ambiente de trabalho? Eu trabalho em casa. Uso primordialmente o computador, desenhando diretamente através de um tablet ou compondo partes escaneadas com interferência ou finalização digital. Escondidas num gaveteiro há algumas tantas pastas e, no armário, fica a enorme confusão de tintas, papéis, canetinhas, carimbos, lápis de cor e tudo mais que possa ser usado na produção manual de desenhos. 

O que a inspira a criar? Gosto de pensar que a ilustração é como uma prestação de serviço. Eu sou contratada para resolver em imagens uma questão proposta. Gosto dessa troca, de traduzir em desenhos o que está na cabeça do outro – ou que nem estava na cabeça de ninguém mas, quando aparece no desenho, é como se sempre tivesse estado. Esse desafio não deixa de ser uma inspiração. No mais, tudo o que vejo, leio, músicas que ouço, outros ilustradores cujos trabalhos acompanho, alguns que já morreram, livros infantis que garimpo por aí, outros da minha própria infância, cenas que vejo quando viajo, ou da janela do ônibus, ou que aparecem em sonhos, tudo, tudo o que sinto, vejo e observo compõe esse enorme vocabulário vivo de referências que uso no meu trabalho.
 

Matéria publicada na edição impressa #4 ago.2017 em junho de 2018.