Capa,

À beira do abismo

A morte permeia a obra da alemã Charlotte Salomon, assassinada em Auschwitz aos 26 anos

28fev2019 - 22h00 | Edição #20 Mar.2019

Comparada a Edvard Munch e Amedeo Modigliani, a alemã Charlotte Salomon (1917-43) poderia ser só mais um caso de reconhecimento póstumo na arte. Para a pintora, contudo, teriam saído baratas as agruras da vida de Van Gogh: não bastasse ser judia numa Berlim infectada pelo nazismo, Salomon teve a curta existência assolada pelo suicídio das mulheres de sua família – a mãe, a tia, a avó materna.

Leben? Oder Theater – Ein Singespel [Vida? ou teatro? – Um drama musical], seu livro de memórias, é composto por uma sequência de 769 guaches entremeados por textos que conduzem a narrativa. É um amálgama de cabaré impresso, quadrinhos e roteiro de filme mudo, como tenta descrever a escritora Lisa Appignanesi, que assina uma resenha sobre a obra na Quatro Cinco Um de março.

“Todas as imagens e textos do livro são pintados em três cores: vermelho, amarelo e azul. Salomon mescla as tintas para criar tons radiantes e vivos ou sombrios e morrediços”, escreve Appignanesi. 

É a segunda combinação que compõe a atmosfera da pintura que ilustra a capa da vigésima edição da revista dos livros. Ela retrata Marianne Grunwald, avó de Salomon, contemplando uma planície amarronzada aos pés de uma montanha — de onde um amigo seu despencou. Um prelúdio da morte de suas duas filhas que, assim como ela, viriam a se matar.

“Elas todas tinham longas depressões. Essa passagem demonstra o estado de sofrimento psíquico da família” diz Irene Faber, curadora da coleção da pintora no Bairro Cultural Judaico de Amsterdã.

Ao brasileiro, que começou 2019 com engulhos após a reincidência da Vale em Brumadinho, a imagem pode remeter à lama. À morte, que permeou a vida de Salomon, morta aos 26 anos, grávida, nas câmaras de gás de Auschwitz.

Quem escreveu esse texto

Antonio Mammi

É editor do Nexo Jornal.

Matéria publicada na edição impressa #20 Mar.2019 em fevereiro de 2019.