Política,

O aço do osso

A reinclusão do Brasil no ‘mapa da fome’ torna urgente decidir se 20 milhões de pessoas pertencem ao mesmo país em que vivemos

04nov2021 - 18h44 | Edição #51

Alguém já disse que ser elite, no Brasil, é o mesmo que almoçar e jantar há várias gerações. A cidadania, a política, já haviam mostrado Marx e Engels ao se ocuparem das condições de vida da classe operária inglesa, só existe superada a fome. E hoje, entre nós, a pré-política engolfa ao menos 20 milhões de pessoas. 

A alienação das elites nacionais diante da fome é histórica. O conde D’Eu, que foi senador vitalício pela província do Ceará sem nunca ter estado no Ceará, ao integrar uma comissão de combate aos efeitos das secas no Nordeste, fez a brilhante sugestão de plantar mangueiras em todo o sertão e sugeriu que se importassem camelos!

Foi só nos anos 40 que surgiu uma voz capaz de apontar a verdadeira causa da fome: não eram as secas, a pluviometria, mas a estrutura fundiária baseada no latifúndio a responsável pela miséria rural no país. Josué de Castro era essa voz.
Como não houve reforma agrária até agora, a fome ganhou as grandes cidades e, hoje, acumulada à miséria, ao desemprego e aos efeitos da epidemia de Covid-19, veem-se ampliadas as cenas com miseráveis escarafunchando latas de lixo ou disputando ossos nos descartes dos açougues.

E, à maneira de “condes” modernos, não falta quem aponte a virtude de ossos na cocção dos molhos sofisticados da gastronomia francesa, ou as reservas nutritivas dos desperdícios das cozinhas, que servem às minhocas nas compostagens mas poderiam muito bem ser aproveitadas por humanos. Isso por ignorância literária, pois Jonathan Swift fora bem mais criativo no longínquo século 18 ao escrever sua cínica “Uma modesta proposta” (1729) para prevenir a fome na Irlanda.

Mapa da fome

Seja qual for a razão, estamos diante de um cenário onde não se pode imaginar o país que avança na modernidade graças à adoção de conquistas tecnológicas universais, quando ele tem sido devorado pelos pés por essa condição pré-política que se amplia como um pântano de areia movediça. A reinclusão no “mapa da fome mundial” é apenas a coroação de uma política.

Não se pode imaginar eleições “limpas” com as mãos sujas na omissão. Quem não come não pode votar, e a cidadania encolhe muito além dos seus 600 mil mortos. 

Auxílio mútuo

Diante da omissão do Estado, mesmo as ONGs que buscam atender os miseráveis já dão alertas da diminuição drástica das doações voluntárias. Não é republicano um país cujo grito pela civilização depende de apenas um padre, de nome Júlio. Por isso, muito nos ensina o poema de João Cabral de Melo Neto. Temos que encontrar em nós mesmos

esse esqueleto mais de dentro,
o aço do osso, que resiste
quando o osso perde seu cimento.

Mais do que a “seleção natural”, é o “auxílio mútuo” que constrói uma comunidade forte de viventes, e é dele, sobretudo, que depende a civilização, conforme Darwin demonstrou em The Descent of Man (A descendência do homem). Os vínculos solidários que constituem a nação se esfarelam diante de tamanha tragédia. 

E fico imaginando leitores de Vidas secas que não conseguem inserir a obra na vida do país. O que está em causa é também o sentido da literatura, da escrita em geral. 

Não é republicano um país cujo grito pela civilização depende de apenas um padre, de nome Júlio

Há que se reencontrar “o aço do osso”. Temos que decidir, urgentemente, se 20 milhões de pessoas pertencem ao mesmo país em que vivemos ou não, já que “o que fazer” é uma decisão posterior. Fácil, aliás, visto que tudo está ainda por se fazer. Contudo, em face da fome, toda retórica soa inútil.

Quem escreveu esse texto

Carlos Alberto Dória

É diretor da ONG C5 – Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo, coautor de A culinária caipira da Paulistânia (Três Estrelas) e autor de Formação da culinária brasileira (Três Estrelas).

Matéria publicada na edição impressa #51 em setembro de 2021.