Livro e Leitura,

O bisavô dos audiolivros

Desde o século 19, leitores profissionais narram romances para enroladores de charuto em Cuba

01mar2023 - 04h51 | Edição #67

Pierce Brosnan, ou melhor, Bond, James Bond, entra numa fábrica de charutos em Cuba. A fim de falar com o dono do negócio, cruza um salão cheio de operários que passam o dia manuseando folhas de tabaco. Ao fim do trajeto, cruza com um sujeito sentado em cima de um tablado, com um microfone à sua frente, fazendo a leitura enfática de um jornal para os trabalhadores.

O leitor, um figurante sem relevância, dá uma caracterização realista ao ambiente onde se produz um dos produtos que mais orgulham os cubanos. O filme 007: um novo dia para morrer é de 2002 e, passados vinte anos, quem entrar numa fábrica tradicional do país tem chance de ver uma cena parecida. O ofício que praticamente só existe por lá se tornou patrimônio cultural de Cuba em 2012. Uma espécie de “bisavô” dos audiolivros.

Hoje há em atividade cerca de duzentos lectores de tabaquería por toda a ilha. A contagem é de 21 de dezembro de 2022, quando se comemorou o 157º aniversário do marco inaugural da prática. Naquele dia, vários leitores se reuniram em suas províncias para celebrar a longeva função. A celebração é sempre acompanhada de perto por Zoe Nocedo Primo, professora que dirigiu o Museu do Tabaco de Havana de 1999 a 2018 e está à frente do projeto cultural Amigas del Habano.

Em 21 de dezembro de 1865, o periódico La Aurora trouxe a notícia de que cerca de trezentos operários iniciaram a prática da leitura da Fábrica El Fígaro

Segundo ela, há versões difusas sobre o começo da história. Uma delas diz que a leitura nas tabaquerías tem sua origem nas prisões cubanas de meados do século 19, onde um dos trabalhos realizados pela mão de obra encarcerada era justamente torcer tabaco. Por suas pesquisas, a percepção de Primo é de que a leitura nas prisões de fato ocorria, mas não necessariamente ligada à atividade de produção de charutos, e sim com fins de reeducação dos detentos. Acontece que a região onde estava localizada uma das principais prisões de Havana era também uma zona onde vivia uma grande quantidade de profissionais do tabaco. “O que se sabe com certeza é que, desde o começo, a leitura é uma profissão muito familiar. Até hoje podemos encontrar pai, esposa, filhos, seis pessoas da mesma família revezando-se na função. Então uma hipótese é que, como a prisão tinha tal prática de leitura, famílias de presidiários podem ter levado essa forma de comunicação para as fábricas”, diz a estudiosa.

A data do marco inaugural se baseou em uma notícia de jornal. Em 21 de dezembro de 1865, o periódico La Aurora trouxe a informação de que cerca de trezentos operários iniciaram a prática da leitura na fábrica El Fígaro. Logo em seguida, a “moda” se espalhou pela ilha feito pólvora. “Posso afirmar que em 1866 já se lia em quase todas as manufaturas de tabaco torcido de Havana, e logo por todo o país”, diz Primo. Uma das marcas mais famosas de charutos, a Montecristo, teria recebido este nome por causa do romance de Alexandre Dumas, O conde de Montecristo.

Mas a pesquisadora faz questão de dizer que não se trata de uma história “en blanco y negro”, com visão romantizada. Não interessava a boa parte dos donos de fábrica que os funcionários aprendessem. Ao que tudo indica, o salário dos leitores foi pago por muito tempo pelos próprios trabalhadores. O pagamento oficial pelo serviço só teria acontecido após a revolução de 1959. Primo observa que todos os operários mais velhos que já entrevistou contaram que o pagamento era feito nesse esquema colaborativo. Mas observa: “Esta é outra questão que merece mais investigação”.

A vida dos outros

No início, a missão era para poucos: além de ser capaz de fazer leitura fluente em uma fase em que grande parcela da população era analfabeta, era necessário ter boa dicção e conseguir dramatizar. Como os torcedores de folhas de tabaco são dispostos em grupos grandes reunidos num mesmo ambiente, todos conseguem ouvir a leitura. Ao longo do tempo, foi-se reconhecendo os benefícios desse hábito, como a difusão de conhecimento e o nascimento da consciência de classe, no lugar de um silêncio tedioso. “Na indústria cubana do tabaco, o ‘lector de tabaquería’ se tornou um indivíduo-chave, fundamental no grupo de trabalhadores mais cultos e politizados da época em que a nacionalidade cubana era forjada e a ilha lutava por sua independência”, resume a pesquisadora mexicana Araceli Tinajero no livro El lector de tabaquería: historia de una tradición cubana.

“É um setor que se orgulha de ser historicamente culto”, observa Felicia Alejandra Torres Rodríguez, 54, que desde janeiro de 2021 trabalha como leitora na fábrica Francisco Pérez Germán, em Havana. Ela conta que trabalha em quatro turnos, promovendo neles um revezamento de temas. Há o momento dedicado às notícias, em que lê jornais como Granma, Tribuna de La Habana e até transcrições de notícias de televisão. O momento cultural é variado, com notas sobre ciência, curiosidades, gastronomia e decoração. As biografias são o gênero que costumam ter mais êxito entre os trabalhadores, sobretudo as que contam a trajetória de artistas ou personagens históricos.

Uma das marcas de charutos teria recebido seu nome por causa de ‘O conde de Montecristo’

Mas nem sempre é fácil atrair a atenção da turma, sobretudo no período pós-almoço. “É o horário em que a maioria das pessoas está em processo de digestão, com as mãos ocupadas, fazendo um trabalho repetitivo… Aí escolho histórias que as despertem, inclusive com cenas de sexo, violência ou linguagem adulta”, diz Felicia.

A leitora define seu trabalho como um “ofício gratificante”. “Ali me transformo numa comunicadora, e há bastante interação com os outros trabalhadores. Às vezes me perguntam coisas que tenho que estudar para responder.” Ela conta que quando leu Marx y mis maridos, da cubana Lourdes de Armas, os mais jovens lhe perguntavam depois sobre o “período especial” (nome dado pelo governo cubano para o período de crise econômica entre 1990 e 1999), pano de fundo para uma parte da obra. “Como eles não viveram essa fase, quiseram saber se as coisas foram mesmo como está descrito ali”, explica.

Adaptações e contextualizações não são o único sinal dos tempos na profissão sesquicentenária. É natural que as novas tecnologias tragam novos desafios para o ofício se manter sem ser descaracterizado. A celebração de aniversário no último mês de dezembro contou com um debate sobre o tema, sobretudo no que diz respeito ao uso de celulares. “Não se pode ir contra a tecnologia, o desenvolvimento e a juventude”, constata Primo, que vem observando mais operários com fones de ouvido, preferindo ouvir música em vez da leitura. Por outro lado, a situação acaba se tornando um desafio interessante. “O que se faz é tentar buscar obras mais significativas e contemporâneas, como livros policiais, gênero que sempre foi o mais amado pelos profissionais do tabaco.”

Há também as saídas particulares de cada fábrica. Na La Corona, por exemplo, quando Odalys, uma das leitoras mais antigas em atividade em Havana, ficou doente, passaram a convidar gente de fora para a função. “Ela acabou substituída um dia por um tremendo ator da televisão cubana, já aposentado. Aí a cada semana passaram a contar com a presença de um ator, ou de um escritor, ou de um grupo musical. Isso deu uma bela sobrevida à leitura de tabaquería ali”, arremata Primo.

Quem escreveu esse texto

Helena Aragão

É jornalista e mestre em História, Política e Bens Culturais pela FGV.

Matéria publicada na edição impressa #67 em fevereiro de 2023.