Infantojuvenil,

A vida pregressa de Pooh

Bem antes da adaptação da Disney, a fina arte dos criadores do ursinho Pooh nos deu um clássico literário sobre a camaradagem

15nov2018

Desde a primeira frase, o livro O ursinho Pooh deixa ver os elementos que fariam dele um dos maiores fenômenos da literatura mundial. As histórias de Pooh e seu dono, o menino Christopher Robin, são tão fascinantes quanto os bastidores da criação do livro e o que aconteceu após sua publicação, em 1926. Um interesse que agora se renova graças ao filme Adeus, Christopher Robin e a uma grande exposição no Museu Victoria & Albert de Londres, que edita um catálogo recheado de imagens e curiosidades.

“Aqui está o Urso Eduardo, descendo a escada, bump, bump, bump, batendo a cabeça, bem atrás de Christopher Robin”. Assim A. A. Milne começa a história e, de saída, faz referência direta ao desenho de E. H. Shepard que domina a página ao lado. A perfeita colaboração entre escritor e ilustrador, ou seja, entre palavras e imagens, é um dos principais ingredientes que atraem as crianças na idade do primeiro contato com livros. Infelizmente, nenhum livro da dupla está em catálogo no Brasil. 

(“Urso Eduardo?”, dirá você. “Mas o nome não é Ursinho Pooh, ou Puff, para os mais velhos?” Calma. Os nomes envolvidos, também presentes na frase de abertura do livro, configuram outro poderoso ingrediente. Por enquanto, vamos nos ocupar com os nomes de Milne e Shepard.)

Alan Alexander Milne era um nome conhecido na Inglaterra do começo do século 20. Escrevia para a lendária revista Punch, onde chegou a ser editor-assistente depois de haver editado a revista literária Granta no tempos de aluno em Cambridge. Além disso, escrevia peças para o teatro londrino. No entanto, nada até então o elevava acima da boa média da imprensa e dramaturgia da época. O primeiro sinal de que poderia produzir verdadeiras pérolas veio a partir de uma brincadeira. “Vésperas”, poema infantil que escreveu para o filho, ganhou fama imediata ao ser publicado no outro lado do Atlântico, na Vanity Fair. Ali aparecia, pela primeira vez na obra de Milne, o nome de seu filho: Christopher Robin, o garotinho que se ajoelhava ao pé da cama para rezar.

No embalo de “Vésperas”, Milne escreveu uma série de poemas infantis recolhidos no livro When We Were Very Young [quando éramos pequenos], alguns dos quais exibiam, novamente, o nome do filho. A tiragem inicial de 5 mil exemplares esgotou-se no dia do lançamento. Para ilustrar a coletânea, Milne convidou um artista que conhecia das páginas da Punch: E. H. Shepard. Tamanha foi a contribuição de Shepard para o livro que logo passou a deter também os direitos de royalties da obra. 

Mais do que capturar a inocência infantil ou transmitir a delicada atmosfera da paisagem, por vezes é a ilustração que expõe a ironia contida nas palavras, e detalhes ocultos na imagem revelam algo de que os personagens nem sequer suspeitam. Quando o burrinho Ió perde seu rabo, por exemplo, Pooh gentilmente decide ajudar e começa sua procura na casa do Corujão. Só o leitor mais atento perceberá, na ilustração, que a campainha da casa do Corujão é, na verdade, o rabo de Ió amarrado à sineta. Algo que o texto não menciona, e que Pooh só vai notar depois.

A escrita de Milne, por sua vez, é prato cheio para um ilustrador sensível como Shepard. O escritor costumava dizer que “levava seu trabalho a sério mesmo levando-o ao jardim da infância”. As histórias são sonoras, compostas para serem lidas em voz alta. Milne apurou o estilo ao escrever para o teatro, e seu texto incorpora referências visuais que indicam como deve ser lido. Assonâncias, musicalidade e onomatopeias fazem parte do elenco, desde a primeira frase com as batidas repetidas da cabeça de Pooh a cada degrau, “bump, bump, bump”, e a aliteração explosiva do b (“batendo”, “cabeça”, “bem” e “Robin”).

Inovação

A disposição de texto e imagem na página também era exaustivamente planejada, numa abordagem rara e inovadora para a época, quando desenhos eram tidos como mera decoração subordinada ao texto — que não tomava conhecimento de sua companhia. Um exemplo desse efeito está na passagem em que Pooh sobe numa árvore. Milne e Shepard decidiram quebrar uma frase palavra por palavra, fazendo-a ocupar todo o espaço vertical da página, mimetizando o tronco: cada linha passa a ser, assim, um galho da frase.

Essa simbiose chega ao extremo quando Shepard, por engano, faz uma ilustração horizontal, o que acrescenta uma página ao livro. Em lugar de corrigir o desenho, Milne decide escrever alguns parágrafos a mais, a fim de preencher o espaço criado pela ilustração equivocada.

Christopher Robin já era famoso quando os leitores o flagraram descendo a escada, na primeira frase do livro. Mas Pooh, como vimos, se chamava Eduardo. É que no livro anterior, o dos poemas de When We Were Very Young, Pooh era um cisne. No entanto, diz Milne na introdução, o ursinho queria um nome mais divertido. Seu filho Christopher encontrou inspiração no zoológico de Londres, que acabara de receber de presente uma ursa canadense, chamada Winnie, doada por um militar da cidade de Winnipeg, de onde veio seu nome. Christopher rebatizou seu ursinho de Winnie-the-Pooh (décadas mais tarde, quando a Disney comprou os direitos, o nome perderia os hifens). 

Porém, o urso em que E. H. Shepard baseou suas ilustrações não era o de Christopher Robin, mas sim Growler, o urso de pelúcia que pertencia a seu próprio filho, Graham. O menino também serviu de modelo para o desenho do Christopher Robin das histórias. Assim, e mais uma vez, a mescla entre escritor e ilustrador se torna indissociável. Christopher e Pooh são também Graham e Growler.

As aventuras de Pooh e seu dono renderam ainda mais dois livros, de enorme sucesso e traduzidos para mais de trinta idiomas. Mas o verdadeiro Christopher Robin, como mostra o filme que leva seu nome, cresceu traumatizado com a fama instantânea a que foi alçado ainda criança. 

Já adulto, vendeu sua participação nos royalties para criar uma fundação para a filha, que sofria de severa deficiência. Escreveu memórias que viraram best-sellers, mas manteve-se sempre longe dos holofotes. Escolheu viver no anonimato, como pequeno comerciante no sul da Inglaterra, até morrer, em 1996, aos 75 anos. Tentou escapar de seu destino, mas sempre apareciam fãs para pegar autógrafos e ver de perto o personagem, que invariavelmente se escondia nos fundos da loja — uma livraria.

Quem escreveu esse texto

André Laurentino

Escritor, é autor de A paixão de Amâncio Amaro (Agir).