História,

Aprendizes de feiticeira

Oferecendo 150 cursos, universidade livre no ABC paulista forma terapeutas holísticos e bruxas em busca de transformação

01out2019 - 01h10 | Edição #27 out.2019

Sentadas com os pés descalços em círculo sobre almofadas coloridas no chão e em cadeiras e sofás ao lado de bichinhos de pelúcia, pouco mais de vinte pessoas estão reunidas em uma sala de uma casa ampla em Santo André, no ABC paulista, em uma noite fria de uma quarta-feira de agosto. Elas seguem com atenção os comandos da professora que caminha no meio do recinto decorado com papel de parede imitando uma catedral gótica e reproduzindo figuras da pintura O nascimento de Vênus (1485–86), de Sandro Botticelli, além de máscaras venezianas e orientais, um calendário maia, pinturas de gatos, uma imagem de Ganesha, um pentagrama, santinhos católicos, um quadro com os nomes de Alá em árabe, entre outras ornamentações. Uma cozinha aberta belamente equipada fica escondida mais ao fundo.

“Podem abrir suas mandalas”, diz a professora. Tecidos coloridos são abertos rapidamente na frente de cada uma das alunas — apenas três homens fazem parte do grupo. Sobre os panos, colocam castiçais, velas, copos de água, incensos, athames (uma espécie de punhal) e pedras. A professora distribui conchas, moedas de cinco centavos, lápis e papel. “Vamos abrir o altar”, avisa. Todos levantam o athame e giram o punhal no ar no sentido horário, com a coluna ereta e saudando a lua cheia. Em seguida, posicionam o athame novamente sobre o tecido.

É o momento de iniciar o feitiço de prosperidade. “Saibam pedir, peçam aquilo que vocês conseguem dar conta”, alerta. “A mente mente diariamente. Escrever cria uma conscientização.” A professora fala para os alunos escreverem no papel com lápis o que desejam para a sua própria prosperidade. “Toda bruxa precisa de lápis para fazer ritual. Lápis é princípio do diamante, pois o que se escreve com ele vira diamante.” As alunas dobram quatro vezes o papel e colocam a moeda em cima dele. Mesmo sem ter um altar para chamar de meu, oferecem-me lápis, papel e moeda. Escrevo algumas frases no papel. Cuidado com o que deseja, já diz o ditado. 

É hora de ativar os quatro elementos do altar: água, ar, fogo e terra. As luzes da sala se apagam e um mantra é entoado. A professora pede que as alunas coloquem as mãos sobre o coração, depois acendam o incenso e as velas. “Que assim seja e assim será!” A professora recomenda que guardem a moeda na carteira e durmam com o papel até a próxima lua cheia, quando este deve ser queimado. Não se pode queimar antes para não cortar os desejos, mas não tem problema se passar dessa data. Feitiço, aparentemente, não tem data de validade. É preciso, então, fechar o círculo: os athames são novamente levantados e, dessa vez, giram no sentido anti-horário. A aula sobre instrumentos mágicos do curso de bruxaria natural da Universidade Livre Holística Casa de Bruxa (UniCB) chega ao fim.

Fundada em 1996 pelo casal Alexandre e Tania Gori a partir de uma franquia da marca esotérica Alémdalenda, a Casa de Bruxa foi a segunda universidade holística a abrir no Brasil — a primeira foi a Unipaz, em Brasília, em 1987 — e apresenta mais de duzentos cursos divididos em duas grandes áreas: Esotérica e Terapias Holísticas. Um dos carros-chefe da casa, além de terapia vibratória, massagem terapêutica e reiki, o curso de bruxaria natural, ministrado por Tania Gori, tem por objetivo desenvolver o sexto sentido, tendo formado mais de 7.300 iniciados. Ao longo de dezessete meses, em encontros semanais, Gori — que aprendeu grande parte dos seus conhecimentos mágicos através de sua avó, descendente de ciganos — ensina suas alunas a utilizarem ervas, cristais e os quatro elementos, a trabalharem com a comida, os instrumentos, os oráculos, o tarô, as runas, a astrologia, a olharem mais para o céu e perceberem as fases da Lua e o ciclo da menstruação para desenvolver a percepção do que está no entorno.

Para ela, a bruxaria é menos uma religião e mais uma filosofia de vida que busca entender a energia do cotidiano. Assim, ser bruxa é buscar uma maneira de se equilibrar com os quatro elementos, saber a origem dos alimentos e tomar mais remédios naturais. “Mas existe uma visão Harry Potter, que diz que com uma varinha vai te transformar num sapo. Isso é uma visão de contos de fada. Não é essa a transformação que a gente busca. A gente tem a força da natureza para transformar de forma real. Eu estou resfriada, preciso ficar bem. Como vou fazer essa transformação? Vou pegar a energia da camomila, da laranja e do alho, vou fazer uma poção mágica, que é um chá, vou tomar e ficar bem.”

Pessoas notáveis

A procura pela casa só aumentou com o passar dos anos. De escola esotérica passou para universidade, e se situa hoje em uma ampla propriedade com um pátio usado para rituais a céu aberto, decorado com uma pirâmide, um dragão vermelho e uma estátua de Santo Antonio. Um enorme chapéu de bruxa estereotipado atravessado por uma vassoura em alto-relevo adorna a fachada da casa de dois andares pintada de lilás, entre duas janelas da frente. 

A entrada dá para o Empório da Bruxa, uma loja que vende mais de 5 mil itens na linha de esotéricos e de terapias holísticas; mais atrás ficam a parte administrativa; a Bruxoteca, uma biblioteca que dá acesso à bibliografia dos cursos; a sala da Pachamama e a sala em que Gori dá as aulas de bruxaria natural e gastronomia da bruxa; no andar de cima, outras salas de atendimento, com nomes como Afrodite, Ísis e Lakshmi.

Os focos da casa são cursos de autoconhecimento e a qualificação profissional. A grande maioria do corpo discente é formada por mulheres de 35 a 65 anos, vindas de São Paulo e com ensino superior completo. Muitos chegam à casa com vontade de mudar de profissão ou atuar em outra área para obter uma renda extra, como massoterapeuta ou terapeuta holístico. Já no caso da bruxaria natural, muitos buscam autoconhecimento. Uma das alunas da aula a que assisti disse que viu um panfleto sobre a casa e resolveu, animada, que queria se tornar bruxa. Outra declarou que se identificou ao ler um dos slogans da casa em um cartaz: “Um lugar para pessoas notáveis”. “Eu sempre me achei uma pessoa pouco comum”, disse, categoricamente. “É que se a pessoa for procurar a bruxaria, ela já não é comum”, arrematou outra, com o que todas concordaram.

A magia é um negócio sério. Os cursos de qualificação profissional são de longa duração, e os alunos devem passar por horas de estágio supervisionado — 150 horas para os da linha esotérica, chamado de Ambulatório, e trezentas horas para os de terapias complementares, no Hospital Holístico. Eles atendem de forma gratuita todas as segundas, quartas e sextas, com horário marcado, mais de 150 pessoas por semana — e tem lista de espera. Para concluírem o curso, os alunos precisam escrever uma monografia com estudos de caso. Só daí é que recebem o certificado de conclusão e podem dar entrada com um pedido para se filiarem à Associação Brasileira de Terapeutas Holísticos (Abrath) para poderem exercer a profissão. Neste ano, a instituição passou a oferecer cursos à distância.

A Casa de Bruxa ainda possui um instituto em Ribeirão Pires (sp), que recebe milhares de pessoas para a realização de rituais maiores (como os do Halloween) e apresenta dezenas de plantas usadas em aulas práticas. É também a principal organizadora da Convenção de Bruxas e Magos, que ocorre há dezesseis anos na vila de Paranapiacaba (sp) e que neste ano reuniu 18 mil pessoas, sendo o maior encontro esotérico da América Latina.

Gori faz questão de que a casa seja bastante eclética, “para que a pessoa tenha um livre pensamento. A ideia é abrir e não fechar. Na primeira aula de bruxaria, digo: ‘Não estou aqui para responder a nenhuma pergunta, estou aqui para criar inquietações na sua mente’. A pessoa tem que aprender a pensar por si só. Aqui não é para a pessoa ter um guru, um pastor, um professor. Ela tem que se tornar mestre de si mesma. Ela tem que aprender a pensar e escolher o caminho dela. E aí ela encontra a verdadeira magia, que é ter esse poder dela”. 

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #27 out.2019 em setembro de 2019.