As Cidades e As Coisas,

Não deixe a cidade morrer

Projetos procuram reinventar os espaços urbanos no cenário pós-pandemia

12jun2020 - 10h23

O ar da cidade liberta: é o que já dizia um conhecido ditado alemão do fim da Idade Média. A cidade não é necessariamente um espaço democrático, igualitário ou mesmo salubre. Mas ela é, por excelência, o lugar do encontro e do conflito e, por isso mesmo, também o espaço onde aspectos profundos da sociedade podem ser questionados e revistos. O espaço urbano traz consigo o convívio forçado com o outro e o compartilhamento contínuo dos mais diversos tipos de espaços e estruturas, desde as barras dos trens do metrô até parques e mesas de restaurante.

Se isso permite que a cidade possa ser almejada como um bem comum, a ser construído de maneira coletiva, também parece ser o pior cenário possível diante de um vírus que prospera com a proximidade entre as pessoas e o uso partilhado de ambientes e superfícies. É justamente por isso que desde o início da pandemia do novo coronavírus, a mídia, arquitetos e urbanistas ao redor do mundo alertam para as mudanças radicais que a crise de saúde provocará nos espaços urbanos.

Em uma dualidade de previsões, que se explica pela gravidade desse evento histórico, bem como pelas incertezas que perduram sobre a criação de uma vacina, cenários dos mais otimistas aos mais pessimistas têm sido apresentados para as cidades.

De um lado, há vozes que preveem que o medo do contato levará ao aumento do uso do carro depois da quarentena e à morte dos espaços públicos e culturais, que costumam concentrar aglomerações. A Amazon, que já era uma grande ameaça às pequenas livrarias e outros comércios locais, quebrou recordes de vendas durante o período de isolamento.

Além disso, considera-se que a pandemia pode fortalecer ainda mais o conceito corporativo de smart cities, cidades eficientes operadas por meio de extensas bases de dados de maneira pouco transparente, e consolidar preocupantes medidas de vigilância implementadas como resposta ao coronavírus, mas que podem permanecer a longo prazo, de maneira similar ao que aconteceu após os atentados de Onze de Setembro.

No Reino Unido, apesar da crise habitacional, o governo propôs flexibilizações para a obrigação de construir moradias sociais em projetos residenciais privados de modo a ajudar pequenos e médios incorporadores. Além do risco das desigualdades se exacerbarem, também existe a possibilidade de um fugere urbem, especialmente se o regime de home office se instituir como norma para as classes privilegiadas.

Na direção contrária, outros especialistas apontam para a oportunidade que a pandemia traz para repensar as cidades. A ideia é propor soluções não somente em resposta à nova doença, como também para a mudança de aspectos que, apesar de constituírem o que antes considerávamos como “normal”, não são positivos do ponto de vista coletivo ou ecológico.

Uma das mudanças mais discutidas é em relação à mobilidade ativa e sua capacidade de revitalizar os centros urbanos quando estivermos do outro lado do túnel: algumas cidades já começaram a ver um aumento no número de pessoas que escolhem caminhar ou usar a bicicleta para seus percursos diários, em parte devido à diminuição do número de carros nas ruas durante a quarentena, mas também ante o desconforto da volta ao transporte público, em que a manutenção do distanciamento social é um desafio.

Lugar de mudanças

O fato de que tanto os pessimistas quanto os otimistas estejam pensando em transformações de grande escala tem respaldo histórico. Há séculos, para não dizer milênios, o tecido urbano passa por transformações que visam dar conta de diretrizes mais amplas, inclusive de ordem sanitária. Desde a peste que acometeu Atenas em 430 a.C., ao surto global de cólera no século 19 e à gripe espanhola de 1918, crises de saúde deixaram suas marcas nas cidades. Outras grandes mudanças aconteceram mesmo sem a ameaça de uma pandemia: o sistema de zoneamento moderno nasceu da preocupação de separar usos industriais e residenciais em Frankfurt, no fim do século 19, uma vez que as atividades das fábricas eram prejudiciais à saúde.

Além disso, bairros inteiros de Londres foram demolidos no século 20 para dar lugar a conjuntos habitacionais, um projeto guiado não somente por preocupações sociais, mas também sanitárias. Olhar para o passado é um dos melhores modos para entender o presente e prever tendências para o futuro e não faltam referências a esses eventos históricos nas discussões sobre como o espaço urbano será configurado pós-coronavírus.

Não há nada mais apropriado às cidades que o barulho de ideias e previsões em polos opostos. O que parece essencial em meio a ele é lembrar que o mundo se encontra em uma espécie de vácuo dada a suspensão radical da normalidade, e sempre que existe um vácuo existe a chance de ocupá-lo. Embora seja cedo para prever exatamente qual será o contexto mundial nos próximos meses, para que esse espaço que se abriu nas cidades seja tomado por políticas mais inclusivas e sustentáveis, um caminho deve ser traçado desde já.

Apesar da sensação, por vezes, de estarmos assistindo passivamente a um filme com o desenrolar vertiginoso da pandemia pelo mundo, é preciso começar a escrever o roteiro do futuro dos centros urbanos, ainda que em um primeiro momento através de projetos-piloto, que podem vir a ser adaptados com o tempo. Não podemos deixar que o espírito da cidade seja esvaziado e que ela perca sua posição como palco de questionamentos. Assim como não podemos perder a oportunidade de fazer dessa pausa um gatilho para repensar o meio urbano. A boa notícia é que muitas iniciativas já começaram a aparecer pelo mundo.

Transporte, moradia e respostas locais

Antes da pandemia, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, propôs, em sua campanha de reeleição, transformar a capital francesa em uma “Cidade de quinze minutos”, segundo a qual os parisienses teriam acesso a trabalho, saúde, cultura e serviços a quinze minutos a pé ou de bicicleta de casa. A chave para isso está em uma política redistributiva que transfere, para pedestres e ciclistas, vias originalmente ocupadas por automóveis. Frente à pandemia, essa tendência foi acelerada com a criação de ciclovias temporárias para oferecer mais opções de mobilidade para trajetos essenciais, e com o anúncio de que novas ciclovias serão criadas ao longo das linhas de metrô mais usadas da cidade.

Na América Latina, a prefeitura de Bogotá cedeu, para pedestres e ciclistas, 117 quilômetros de vias para carros que já eram dedicadas ao transporte ativo aos domingos, além de adicionar 80 quilômetros à rede cicloviária da cidade para encorajar as pessoas a priorizarem tais percursos mesmo depois da crise.

A ênfase em mobilidade ativa tem sua razão de ser: além de ser um fator essencial para diminuir a poluição, ela também ajuda na melhora da saúde da população e tem efeitos econômicos positivos para o comércio de rua. A redistribuição do espaço é particularmente importante para evitar que as ruas vazias sejam ocupadas de maneira ainda mais agressiva pelos veículos motorizados, como aconteceu nos Estados Unidos, onde motoristas aproveitaram a ausência de trânsito para dirigir em velocidades mais altas.

Outra discussão incontornável gira em torno da habitação. A mensagem “fique em casa” é um dos pilares da resposta ao vírus, mas ela logo se tornou problemática diante do cenário de extrema vulnerabilidade dos moradores em situação de rua, bem como daqueles que perderam sua fonte de renda e não podem mais arcar com o aluguel. A pandemia tem renovado o debate sobre a necessidade de se melhorar as condições de moradia, com medidas importantes sendo postas em prática em diversos lugares.

Países como Estados Unidos e Espanha implementaram proteções para locatários, além de extensões para prazos de pagamento de hipotecas. No Brasil, um projeto aprovado pelo Senado, e que foi vetado pelo presidente, previa a suspensão da concessão de liminares para ações de despejo por atraso no pagamento de aluguel ajuizadas desde março.  Prefeituras de cidades brasileiras também começaram a alugar quartos de hotéis para abrigar pessoas em situação de rua – um ótimo exemplo de disponibilização de imóveis vazios para aqueles que mais precisam e que poderia reforçar o cumprimento da função social da propriedade a longo prazo.

Nas favelas, onde as condições de precariedade são ainda mais graves e os moradores estão acostumados com o descaso do setor público, respostas locais vêm surgindo. Além da ênfase em comunicação para disseminar cuidados preventivos, lideranças apostaram em modelos comunitários e em doações para distribuir alimentos e produtos de higiene. Em Paraisópolis, em São Paulo, foram criados “presidentes de rua”, voluntários responsáveis por cuidar de casas específicas por meio da conscientização, distribuição de doações e acionamento de auxílio médico.

Projetos como “Mães da Favela”, apoiado pela Unesco, e “Adote uma Diarista” visam dar suporte às mulheres que, apesar dos cortes de renda, continuam tendo grandes responsabilidades em suas famílias. Longe de substituir a importância da ajuda do Estado, tais programas apontam para um contexto de solidariedade e iniciativas da sociedade civil durante a pandemia. Não faltam relatos do crescimento da ajuda mútua, redes de suporte informais e menos hierárquicas que instituições estabelecidas. As propostas vão desde a distribuição de recursos e cuidados com crianças cujos pais trabalham na linha de frente, até ligações para pessoas de idade que moram sozinhas.

As cidades, bem como o panorama nacional em que estão inseridas, têm histórias e desafios específicos e não haverá um modelo único para repensá-las durante e após a crise. Mas o que permeia essas primeiras iniciativas é a consciência da necessidade de fazer experimentos e propor respostas enquanto um sentimento de solidariedade circula entre nós. Já os protestos antirracistas que sacudiram as cidades ao redor do mundo nas últimas semanas sinalizam que o espírito de luta, próprio ao meio urbano, ainda se mantém vivo apesar da ameaça do vírus.

Quem escreveu esse texto

Mariana Schiller

É crítica literária e mestre em planejamento urbano pela Bartlett School of Planning, em Londres.